Resumo
Merleau-Ponty pensava que a filosofia devia revestir uma forma muito mais modesta e menos impositiva do que aquela que habitualmente assumiu ao longo da sua história. Chamou a isso não-filosofia e acreditou que a fenomenologia, com a sua inversão entre Ser e Fenómeno, respondia a essa exigência. Interessa, pois, num filósofo, não tanto o que foi dito, mas antes o impensado que constitui o substrato da nossa reflexão. A história da filosofia não lhe interessava. A nós também não; e por isso nos ocupamos dele a partir daquilo em que o seu pensamento se tornou: a fenomenologia que hoje se faz, seja qual for o nome que receba. Merleau-Ponty pensou ao fio da leitura de Husserl, e nós fazemos fenomenologia ao fio da leitura de Merleau-Ponty.
A sua receção de Husserl é uma reação contra o Husserl idealista e, em geral, contra a tentativa de montar a redução sobre a subjetividade. Se a correlação que estrutura a perceção consta de apreensão–adumbrações–objeto, podemos considerar que, na redução, se conserva, com a correspondente “deformação coerente”, essa correlação trimembre, de tal modo que, no último registo do Invisível, encontramos a correlação: c/ia/r–qu¡asmo–Wesen. Há, pois, três dimensões verticais na matriz resultante, de modo que a primeira e a terceira são os canais por onde decorrem a redução transcendental e a redução eidética de Husserl, enquanto a filosofia de Merleau-Ponty é um esforço para procurar precisamente o complemento e montar a redução sobre o eixo central: o eixo dos fenómenos enquanto tais, as Erscheinungen ou fenómenos apareados, que é também o eixo hilético. Daí o seu interesse pela Natureza.

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